João Baptista dos Santos

22/06/2011 16:06

 

Dr. João Baptista dos Anjos

 

*Antonio Carlos Nogueira Britto

 

Introdução 

            Biografia do conselheiro doutor João Baptista dos Anjos (1799-1871), apresentada pelo autor em sessão de 11 de maio de 1995, perante o colendo Instituto Bahiano de História da Medicina e Ciências Afins, fundado em 29 de novembro de 1946, a qual foi realizada na Sala dos Lentes da Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, ao tomar posse como membro titular da cadeira nº 6, que tem como patrono o ilustre e ilustrado conselheiro.

            A dita biografia, saga épica e de exaltação panegírica, foi elaborada mercê de exaustiva pesquisa em catadupas de documentos manuscritos, originais e inéditos.

 
Advertência 
            Apenas o conselheiro doutor Domingos Rodrigues Seixas (1830-1890), lente proprietário de Higiene e História da Medicina de 1858 e lente jubilado em 1881, biografou, em 1871, o conselheiro João Baptista dos Anjos. Nem mesmo o ilustrado amanuense Sr. Anselmo Pires de Albuquerque, arquivista da Faculdade de Medicina da Bahia desde 1896, biógrafo de 32 antigos lentes e destacados funcionários da Faculdade; nem sequer o afamado Augusto Victorino Alves Sacramento Blake, autor do notável "Diccionario bibliographico brazileiro - 1883-1902".
            Creio que sou o segundo a biografá-lo. 
            Proximamente ao termo da segunda década dos oitocentos, já era quase manhã a noite morta na extensa costa da Mina, na África Ocidental, que ia desde o cabo das Palmas até o rio Gabão, estendendo-se em pouco mais ou menos 426 léguas.
            A começar do romper d'alva, perto do golfo de Benim, o vento enfuriava  e ululava nas cordagens de uma bela escuna brasileira, de 220 toneladas, fundeada no meio da barra, de propriedade de rico negociante da cidade da Bahia. Ao depois, plúmbeas e pesadas nuvens cerraram, escurecendo e toldando o horizonte.
            Por volta das 6 horas da manhã, chegada a tormenta, vagas formidandas saltavam raivosas e bramantes sobre o tombadilho do veleiro e invadiam, com ímpeto, as escotilhas.
            Ao meio dia, acalentada a procela, fugace, o sol resplandeceu no zênite e fartou de claridade a costa da Mina, no golfo de Benim, e as brumas do horizonte foram dissipadas.
            Na escuna, os mareantes, postados no castelo de proa, trovavam com voz de peito, timbrada, plangentes cantilenas, aguardando a ordem do capitão para seguirem viagem e arribarem no Brasil.
            Aparelhada em 2 mastros, com um farto velame de caranguejas, bujarronas, balestilhas e traquete de gávea, as marinhagens esperavam o momento de levantar ferro e desfraldar as velas, para o vento impelir a embarcação afora da baía.
            A sua amarra rangia através dos escovens. Finalmente, a âncora foi puxada com o cabrestante, iniciando a escuna a sua derrota para o Brasil.
            O capitão indicou o rumo a percorrer e a embarcação foi empurrada pelo traquete e bujarronas, com as velas já desferradas e içadas.
            O navio estivado corria vento feito, com todos os seus panos, navegando à bolina e partindo os mares, visto que o tempo estava muito veleiro.
            Ao apequenar-se o tórrido e tropical litoral africano, conservava-se no tombadilho, de pé, à proa, segurando, com mãos firmes, o cordeame, um moço de nome João Baptista dos Anjos, natural da cidade da Bahia.
            Cismento, contemplava as formas do litoral, que enfumavam ao longe, confusamente e, voltando-se, mirou, agoniado, para a linha do horizonte, e a escuna apartou veloz.
            O rapazo, de cabelos castanhos corredios, acariciados e osculados pelo vento ponteiro, sorvia o hálito que exalava do mar marulhado, num grande hausto. O seu rosto juvenil, comprido e magro, e olhos pardos, de olhar penetrante, retratavam a personalidade forte que a natureza o prendou desde a parvulice. Sempre se lhe galopou o desejo de sedar a dor, como médico, não lhe carecendo, para o seu "desideratum" ser cumprido, os necessários denodos e empenhos.
            O moço retornava à pátria, estigmatizado por sucesso assaz invulgar. Há pouco, não se lhe afigurando, acreditava, ter cometido infração da lei, estava metido a ferros, padecente, em sombria e úmida masmorra, e réu de morte, condenado por tribo d'África, pelo delito de ter privado a vida de um abutre. Sempre crendo ser incapaz de faltar aos preceitos da probidade e não aceitando que se lhe impusesse qualquer labéu, foi posto em salvo da devoção fanática dos senhores do baraço e cutelo, mercê dos piedosos bons ofícios de negociantes da cidade da Bahia, que satisfizeram a respectiva pena pecuniária, libertando-o das manoplas do algoz.
            João Baptista dos Anjos, se chamou no mundo aquele que foi uma das mais notáveis personalidades da medicina da Bahia no século XIX.
            De berço humilde, de família carente de posses e privada de influência social, e reduzida, João Baptista dos Anjos, em virtude da sua inteligência acrisolada, aliada ao excepcional talento, que transformaram em fascinante realidade os altos ideais que perseguia, conheceu a deliciosa embriaguez do triunfo e do sucesso, cativando a sociedade e fazendo-se respeitar no vasto mundo da ciência e da profissão médica. Em torno dele criou-se uma atmosfera de glória e admiração, impregnada do mais puro incenso lisongeiro.
            O panegírico e estudo biográfico em derredor da vida do conselheiro João Baptista dos Anjos, lavorados em ático estilo pelo lente doutor Domingos Rodrigues Seixas, dados a lume em 30 de setembro de 1871 na "Gazeta Medica da Bahia", emitem conceitos laudatórios tais como: "Um vulto eminente, um dos grande convivas da terra...". "O ilustre finado tão digno de respeito, quão merecedor da geral estima, deixou na sua vida uma aureola de luz brilhante, que illuminará para sempre o seo nome, que já não pode morrer esquecido".
            "A Faculdade de Medicina desta Provincia, onde luzirão, por tanto tempo, o talento e a illustração desse venerando Mestre, lembrou-se de erigir um padrão immoredouro, um quadro biographico, no qual se estampase, com traços vivos os actos mais salientes da vida de seo irmão de lettras"...
            "Ao modo da crysalida, de que falla Rebello da Silva, a qual sentindo, um dia, o raio do sol que a chamava à vida, rompeo o involucro, e lançou-se intrepida das trevas do casullo humilde para os espaços luminosos do seo destino, o Doutor João Baptista dos Anjos desejou ser grande e embarcou-se na difficil empreza das sciencias, de cujo cultivo esperava bonançoso porvir"...(1).
            Continuando sua obra biográfica na edição do subseqüente mês de outubro de 1871, datada do dia 15, assim escreveu o doutor Seixas: "Illustrando a sociedade em que viveo, gosou sempre dos fóros de homem honesto e intelligente".
            "A classe medica respeitava suas luzes, e a Faculdade de Medicina, tributando respeito á sua idade e a seo saber, ha de sempre prestar em seo culto posthumo, uma homenagem sincera de além tumulo, que servirá de echo perenne de sua eterna saudade". (2).
            Já o conselheiro doutor Elias José Pedrosa, lente de anatomia geral e patológica, na Memória Histórica da Faculdade de Médica referente ao ano de 1871, de sua autoria, apresentada à respectiva congregação e publicada na "Gazeta Medica da Bahia", com data de 30 de setembro de 1872, assim se refere ao conselheiro João Baptista dos Anjos: "A 4 de Janeiro de 1871 perdeu ella (a Faculdade) um dos seus mais brilhantes luzeiros. Seu digno director o lente jubilado da cadeira de hygiene e historia da medicina, Conselheiro Dr. João Baptista dos Anjos, desceu a sepultura n'aquelle infausto dia, depois de uma molestia que prostou-o no leito da dôr desde o principio de novembro d'aquelle anno; por cujo motivo assumira a directoria o vide-director, nosso eximio collega, o honrado Conselheiro Sr. Dr. Vicente Ferreira de Magalhães".
            "Uma febre de mau caracter com affecção gastrica, não recente, roubou a Faculdade o seu desvelado director, ao Estado um empregado exemplar, a sociedade um cidadão prestante, um amigo dedicado, um clinico consummado, e a familia um consorte fiel e um pai extremoso. Tão excellentes qualidades não podiam deixar de ser apreciadas na vida de tão conspicuo varão por quantos o communicaram, e particularmente por aquelles que, como nós, tiveram de sentar-se ao seu lado nos bancos da antiga Academia Medico-cirurgica. O digno professor, Sr. Dr. Domingos Rodrigues Seixas, que succedeu-lhe na cadeira, já bem eloquentemente as descreveu no seu discurso necrologico, apresentado a Faculdade em sessão de 9 de setembro do anno findo.
            "A 3 do mesmo mez, reunida a Congregação para diversos outros negocios, requereu o Sr. Dr. Bomfim que se suspendessem os trabalhos e se constituisse em sessão especial, em cuja acta manifestasse a Faculdade o seu pezar pelo passamento do seu director: o que se fez com aceitação unanime. Tocando-me d'esta vez a triste missão de relatar incidente tão lugubre, peço-vos que me ajudeis a render n'esta occasiao um preito de triste saudade ao illustre finado, e a derramar uma lagrima de pungente dôr sobre a lousa do nunca assaz chorado collega". (3).
            Consoante o necrológico e dados biográficos apresentados pelo lente doutor Domingos Rodrigues Seixas, "o finado Conselheiro João Baptista dos Anjos, foi um dos raros cidadãos, que se pode considerar feituras de si proprios".
            "Seo nascimento não tinha tradições gloriosas: seo berço foi pobre e modesto; seus paes sem grandes recursos: sua familia reduzida e sem valimento. Mas, a maneira dos rios, que antes de serem caudalosos, começão por tenues regatos, o illustre finado, apesar dessa origem humilde de parentes desconhecidos, creou um futuro certo e honroso".
            E continua o doutor Seixas, reportando-se à dificil e penosa puerícia do conselheiro João Batista dos Anjos: "seo pae João Baptista dos Anjos, casado com D. Thomazia Leonel dos Anjos, antigo portuguez, a quem faltava a intelligencia precisa para bem aquilatar as aptidões e o merecimento de seu filho, reagio muitas vezes, e oppoz os maiores obstaculos aos desejos do menor, que aspirava estudar as humanidades".
            Detectei, no parágrafo acima, discordância a respeito do nome do pai do biografado. O lente doutor Seixas registra como homônimo o genitor do conselheiro diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, muito embora o doutor Rodrigues Seixas tenha sido colega de congregação e ilustre coevo do doutor João Baptista dos Anjos.
            Foram por mim vistos documentos manuscritos originais que consignam o nome do pai do doutor João Baptista dos Anjos como Pedro de Jesus Stokler, conforme se pode conferir no expediente com data de 22 de outubro de 1823, comunicando a baixa do Serviço Militar referente ao jovem João Baptista dos Anjos, (4) segundo consta nos "Termos de Exames e Actas-Collegio medicocirurgico", quando o então estudante de medicina, João Baptista dos Anjos, foi examinado e aprovado, cursando o 6º ano, na data de 20 de dezembro de 1828 e na oportunidade em que foi aprovado nos exames para obter o grau de Formado em Cirurgia. (5).
            Da mesma maneira, no assentamento do casamento do doutor João Baptista dos Anjos e D. Maria Magdalena Alvares, por mim examinado no competente livro de registro de casamentos celebrados na freguesia de Santo Antonio Além do Carmo, realizado a 6 de fevereiro de 1830, está registrado: "...João Baptista dos Anjos filho legitimo de Pedro de Jesus e Thomazia Leonel dos Anjos já fallecidos..."(6).
            Um episódio assaz invulgar, que certamente estigmatizou o adolescente João Baptista dos Anjos foi narrado da seguinte maneira pelo conselheiro Seixas: "Arreigado á consideraçao de que só pelo commercio se poderia ser feliz, entendia dever levar sua resistencia até a imposição e a luta, ao ponto de coagir o filho a embarcar para a Costa d'Africa, onde passou elle pelo mais peniveis incommodos, sendo até perseguido pelos maioraes da terra, miseros ignorantes, que impuserão-lhe a pena de morte pelo facto de matar um urubú".
            "O moço João Baptista, inexperiente, commeteo essa grande falta, e dentro em breve, achou-se na dura contingencia de ver annunciada a sua hora ultima!".
            "Felizmente, alguns brazileiros reunidos em seo apoio, com pedidos e rogos, mediante a cotisação para o pagamento de uma multa, poderão salvar o jovem bahiano, victima da estupidez daquelle povo brutal".
            "Com auxilio desses brazileiros, conseguio João Baptista regressar à terra natal onde, contra a vontade e somente por obedecer a seu pae, então modificado de ideas, porem ainda austero por genio, acceitou o lugar de sachristão da Cathedral, logar em que não permaneceo, por que era contrario a sua vocação".
            Batinas e vistosas sobrepelizes roxas e escarlates; o ciciar de orações; odores que impregnavam as ventas dos devotos e circunstantes, evolados das velas de estearina, que se consumiam e do incenso turibulado ante os altares e buriéis; clérigos hissopando o finado em ofício de corpo presente e garganteando responso em torno da essa; o sino tocando, a intervalos, triste dobre de defuntos; as amiudadas genuflexões ao beijocar as mãos de eclesiásticos, de fácies tartufizadas; o fedor nauseabundo e miasmático que emanava das catacumbas, foram as razões que anunciaram não estar o moço João Baptista dos Anjos vocacionado para acolitar os homens de Deus no divino ofício na catedral, antiga igreja dos padres da Companhia de Jesus, onde tinha o ofício de sacristão, para obter o parco, porém necessário, estipêndio para estudar medicina, ao retornar da sua dramática viagem à costa d'África.
            Continuou o lente Dr. Seixas: "Todo o intuito, toda a attenção do moço Baptista era ser medico; porem baldo de meios, e sem o favor paterno, obteve no antigo Collegio Medicocirurgico, um lugar de porteiro, emprego cujos rendimentos erão applicados aos estudos que fazia no mesmo Collegio".
            "Essa tentativa nobre, esse pertinaz empenho de elevar-se por seus esforços e recursos, é sem duvida alguma uma das mais brilhantes virtudes do jovem estudante de medicina".
            Ao retornar da sua atribulada viagem a Costa d'Africa, muito provavelmente a região chamada de "Costa do leste do Castelo de São Jorge de Mina" ou simplesmente "Costa da Mina", região do Golfo de Benim (7),  a bordo de um patacho ou brigue, certamente a serviço do tráfico de escravos, o jovem Baptista, vocacionado para abraçar a sublime missão de sedar a dor, empreendeu comovente e fascinante porfia para concretizar seu grandiosos ideal, conforme foi narrado pelo professor Seixas.
            Ao consultar manuscritos originais inéditos relativos ao conselheiro João Baptista dos Anjos, caiu-se o véu sobre pontos escuros e desconhecidos de sua vida, da sua juventude até sua morte, desvendando, de vez, as circunstâncias em que estava envolvida a existência do insigne conselheiro, dissipando quase por completo as névoas cobrindo  a  sua ilustre existência  desde o início  do  século XIX.
            Destarte, os ditos manuscritos farão fixar e cristalizar nestas páginas a fulgurosa e heróica saga, que foi a vida do conselheiro João Baptista dos Anjos, vida que a ação deletéria do tempo ia consumindo e diluindo no passado, mas que foi, em parte, resgatada por meio da presente pesquisa.
            Documentos pesquisados permitem detalhar parte do capítulo inicial do desafio do moço Baptista, idealista, para alcançar seu desiderato.
            Tendo se matriculado no Colégio Médico-Cirúrgico no ano de 1822, quando foi aprovado plenamente ao final do dito ano, o jovem João Baptista, imbuído de inexcedível sentimento de patriotismo, interrompeu os estudos para lutar no Recôncavo, ingressando no exército pacificador para lutar pela independência da Bahia e do Brasil contra as tropas lusas, conforme se lê no seguinte documento:
            "Attesto que João Baptista dos Anjos, que actualmente he soldado da 2.ª Comp.ª do B.am n.º 2 desta Cidade, foi Escolar da Aula do Collegio Medico-Cirurgico, tendo-se Matriculado nella no anno de 1822; fez o 1º acto de Exame com plena approvação no fim do mesmo anno; e deixou de prosseguir naquelles Estudos por ter emigrado para o Reconcavo: e por ser verdade todo o expendido, e me ser pedido esta attestação, a dei e firmo com o juramento do meu gráo.
                        Bahia 12 de Setembro de 1823
                        José Soares de Castro
                        Lente do 1º anno". (8)
            Como se observa, o jovem patriota ainda não tinha sido desmobilizado no mês de setembro, após a entrada, a 2 de julho de 1823, na cidade da Bahia, do exército pacificador, que resultou no fim da luta, pela independência do Brasil, com a partida do general Madeira de Mello para a Europa.
            Finalmente, o denodado rapaz teve baixa do serviço militar a 22 de outubro de 1823, por despacho do Conselho interino do governo da Bahia, cuja sede era na vila de Cachoeira. Tinha então 21 anos de idade, cabelos castanhos e olhos "pardos".
            Pode-se inferir pelo ano constante no sobredito documento, 1823, e pela idade registrada, 21 anos, que J.º Bap.ta dos Anjos nasceu no ano de 1802 ou 1803. Infelizmente quase todas as páginas dos livros de assentos de batizados de diversas freguesias da capital, estavam assaz corrompidas pela ação do tempo, impedindo-me, por conseguinte, de localizar o assentamento do batizado do conselheiro Baptista e identificar o dia, mês e ano do seu nascimento. Da mesma forma, tal documentação não foi encontrada no Memorial da Medicina da Bahia.
            Segue-se a transcrição, na íntegra, do manuscrito em referência:
                        "Alexandre Gomes d'Argollo Ferrao~
                        Sargento Mor Command.e do Batalhão
                        de Caçadores N.º 2 da Cid.e
                        da Bahia por S.M.I. e Snr' D.
                        Pedro 1.º que Deos G.e e V. ª
            Por despacho dos Ill.mos eEx.mos Snr.es do Governo desta Provincia de 21 do Corrente mez, e anno, teve baixa do Serviço Militar, em 22 o Sold.º Voluntario da 2.ª Comp.a do Batalhão de Caçadôres N.º 2 domeu Comando João Baptista dos Anjos filho de Pedro de Jesus Stokler, com 21 annos deid.e prezente, Cabellos Castanhos, Olhos pardos, natural da Bahia
            E para assim constar aonde lheconvier mandei passar aprezente Escuza que vai por mim asignado. Bahia 22 de Outubro de 1823.
            Alexandre Gomes de Arg.º Ferrao~". (9).
            Documentos manuscritos revelam, com riqueza de detalhes, o intento do jovem João Baptista dos Anjos para ser admitido como porteiro do Colégio Médico-Cirúrgico:
            "Diz João Baptista dos Anjos, que tendo seguido com boa applicação as materias que faziam o objecto dos estudos do 1.º anno do Curso da Academia Medico-cirurgica desta cidade, e que tendo interceptado esta carreira por emigrar para o Reconcavo, onde como bom Brazileiro, e com as armas na mao defendeo sua amada Patria, o que se vê do Documento junto; porque se acha vago o lugar de Porteiro da mesma Academia de q.e era Proprietario Manoel Antonio Pires, Portuguez tão desafeto á causa do Brazil, que além de outras provas se retirou p.ª Portugal, deixando o cuidado de seu Ministerio a hum seu Cunhado o que he inadmissivel, o Supp.e porque he Alumno daq.la Academia, e tem proporções necessarias p.ª satisfazer os deveres do mencionado lugar.
                                   P. a V. Ex.ª digne-se attender
                                   seus serviços prestados á Nação e
                                   a vista do supra expend.e provello
                                   no mencionado lugar
                                   E R Mce
                        João Baptista dos Anjos". (10). 
            É deveras assaz singular o estilo redacional do suplicante que, valendo-se da animosidade ainda reinante em relação aos lusos, utilizou-se da condição de heróico combatente nas fileiras do exército pacificador, na guerra pela independência do Brasil, terminada a 2 de julho de 1823 com o general Madeira de Mello fazendo de vela para a Europa, com a esquadra portuguesa composta de 84 navios.
            E mais curiosa torna-se ainda a petição quando o idealista suplicante ressalta o tíbio caráter, a patente irresponsabilidade funcional e a condição de inimigo do Brasil, atributos desabonadores do lusitano porteiro do Colégio Médico-Cirúrgico.
            No frontispício do invulgar requerimento estava exarado o despacho: "Informem os Lentes do Collegio Medico-Cyrurgico. Pal.º do Governo da B.ª 23 de janr.º de 1824
             (assinatura ilegível)"
            Eis a resposta:
            "Ill.mo e Ex.mo Senhor
            Em virtude do Despacho de V. Ex.ia que nos manda informar o requerimento de João Baptista dos Anjos, no qual de ser provido no lugar de Porteiro desta Eschola, vaga pela auzencia de Manuel Antonio Pires, cumpre-nos levar ao conhecimento de V. Ex.ia l.º que o Suppl.e he estudante approvado nas materias do Primeiro anno do Curso cirurgico, de m.to bôa conducta moral, de intelligencia, e aceito em suas obrigaçõens escholares. 2.º que o ditto Manuel Antonio Pires em consequencia de suas longas e teimozas queixas alcançou licença de um anno para ir á Portugal usar das aguas thermicas, d'onde não tem regressado, e nem sollicitado prorogação da licença, como devêra, visto ter espirado o anno concedido pela Junta Provisoria do Governo de 1822. 3.º que Joaquim Pereira de (corrompido) já anteriormente nomeado para servir nos impedimentos do ditto Pires, ficou por ordem da mesma Junta no lugar sem ordenado algum, em cujo exercicio tem continuado a estar; porem que achando-se com praça de Furriel do l.º batalhão de Caçadores, não será possivel cumprir as duas, e incompativeis obrigações de militar, e Porteiro da Eschola — Deus G.e a V. Ex.ª m.to a.os Bahia em Collegio 24 de Fevr.º 1824
                                               D.r Jozé Avellino Barboza
                                               Manoel Jozé Estrella
                                               Jozé Alvares do Amaral" (11).
            A propósito da tenacíssima luta do jovem estudante de medicina para receber o laurel de "cirurgião formado", sem a ajuda paterna, mercê do seu emprego como porteiro do Colégio Médico-Cirúrgico, que lhe facultou precisos, porém  parcos recursos financeiros, mereceu do lente doutor Seixas a seguinte citação: "É occasiao de reproduzir o que disse um literato brazileiro: - É mais para invejar o varão que se faz grande e famoso pelo engenho e pelos actos, do que o homem que já nasceu entre os brazões herdados".
            E acrescenta, referindo-se à vitória alcançada, quando recebeu o diploma de cirurgião formado: "Sem pertencer por tanto o jovem aspirante á essa raça privilegiada da sociedade, a orgulhosa aristocracia, que firma, nos foros da nobreza o grande futuro, que a sociedade viciosa lhe aponta com segurança, sabia elle marchar corajoso na mesma senda, até que por fim, enthesourando um cabedal scientífico sufficiente á merecer fama entre os seus companheiros, alcançou o diploma de Cirurgião formado, título tanto mais honroso, quanto foi conquistado com os olhos fitos no quadro pungente das privações e dos trabalhos".
            Farta fonte primária revelou minudentes detalhes da trajetória da vida estudantil no Colégio Médico-Cirúrgico, desde o primeiro ano, conforme está assentado no precioso livro "Termos de Exames e Actas - 1816-1847 - do Collegio Medico cirurgico".
            Eis o seu tirocínio acadêmico:  
             "Primeiro anno
            (Página 36 - V)
            Aos seis dias do mez de Dezembro de mil oitocentos e vinte e dous compareceo na sala dos Exames o Estudante do Primeiro anno João Baptista dos Anjos para ser examinado no ponto theorico das materias de seu curso que havia tirado de vespera; e sendo perguntado pelo lente Examinador José Avelino Barbosa e Manuel da Silveira Rodrigues debaixo da Presidencia do Lente Substituto José Alvares do Amaral foi por elles Approvado Nemine Discrepante e em que igualmente sou Secretario fiz este termo, que assignará os lentes acima mencionados.
            Bahia 6 de Dezembro 1822
            Dr. Jozé Avelino Barboza
            Dr. Manoel da Silveira Rodrigues
            Jozé Alvares do Amaral" (12). 
            "Segundo anno
            (Página 42)
            Aos vinte dias do mes de Maio de mil oitocentos e vinte e cinco compareceo na salla dos exames João Baptista dos Anjos Estudante do segundo anno para fazer exame das suas respectivas doutrinas, pelo não ter feito em tempo competente por adoecer, obtendo dispensa do lapso de tempo do Ex.mo Senhor Presidente da Provincia: e depois de ser perguntado pelos Lentes Examinadores Antonio Ferreira França, e Manuel Joaquim Henrique de Paiva debaixo da prezidencia do Lente Francisco de Paula de Araujo, foi por elles Approvado Nemine Discrepante. Emfé do que eu Secretario do Collegio fiz este termo assignado pelos dittos lentes. Bahia 20 de Maio de 1825
            Dr. Francisco de Paula de Araujo e Almeida
            Antonio Ferreira França
            Dr. Manoel Joaquim Henrique de Paiva
            José Alvares do Amaral" (13). 
             "3.º anno
            (Página 45)
            Aos dezasete dias do mez de Dezembro do anno mil e oitocentos e vinte e cinco compareceo o Estudante do terceiro anno João Baptista dos Anjos, para ser examinado no ponto que havia tirado no dia antecedente: e tendo sido perguntado pelos Lentes Examinadores Antonio Ferreira França e Manoel Jozé Estrella debaixo da prezidencia do Lente Jozé Lino Coutinho foi por elles Approvado Nemine Discrepante. Eu Francisco de Paula de Araujo e Almeida secretario interino do Collegio fiz este termo que assignarão os referidos Lentes. Bahia 17 de Dezembro de 1825
                        Jozé Lino Coutinho
                        Antonio Ferreira França
                        Dr. Francisco de Paula de Araujo e Almeida" (14). 
           "Chimica
            (Página 44 - V)
            Aos quatorze dias do mez de Dezembro de mil oitocentos e vinte e cinco compareceo o estudante do terceiro anno João Baptista dos Anjos e os estudantes do segundo anno Vicente Ferreira de Magalhães e Elias Jozé Pedroza para serem examinados no ponto que havião tirado no dia antecedente: e tendo sido perguntado pelos Lentes Examinadores Jozé Avelino Barboza e Manoel Jozé Estrella debaixo da prezidencia do Lente Substituto Francisco de Paula de Araujo e Almeida foram por elles approvados Nemine Discrepante. Eu Francisco de Paula de Araujo e Almeida fiz este termo assignado pelos Lentes referidos.
            Bahia 14 de Dezembro de 1825
                        Dr. Francisco de Paula de Araujo e Almeida
                        Dr. Jozé Avellino Barboza
                        Manoel Jozé Estrella" (15). 
            "4.º anno
            (Página 49 - V)
            Aos treze dias do mez de Dezembro de mil oitocentos e vinte e seis compareceo o Estudante João Baptista dos Anjos para ser examinado no ponto de Partos que havia tirado no dia antecedente; e tendo sido perguntado pelos Lentes Examinadores o Doutor Antonio Ferreira França e José Soares de Castro debaixo da Prezidencia do Doutor Antonio Torquato Pires foi por elles Approvado Nemine Discrepante. Em fé do que eu Francisco Magalhães Gesteira Secretario interino fiz este termo que assignarão os Lentes.
            Bahia 13 de Dzbro 1826
            Antonio Ferreira França
            Jozé Soares de Castro
            Antonio Torquato Pires de Figueiredo" (16). 
            "4.º anno
            (Página 49 - V)
            Aos quinze dias do mez de Dezembro de mil oitocentos e vinte seis compareceo o Estudante João Baptista dos Anjos para ser examinado no ponto de Materia Medica e Pharmacia que havia tirado no dia antecedente e tinha sido perguntado pelos Lentes Examinadores os Doutores Francisco de Paula e Araujo e Antonio Torquato Pires de baixo da Prezidencia do Doutor Jozé Lino Coutinho foi por elles Approvado Nemine Discrepante. Em fé do que eu Francisco Marcellino Gesteira fiz este termo que assignarão os ditos Examinadores. Bahia 15 de Dzbro 1826
            Jozé Lino Coutinho
            Francisco de Paula de Araujo e Almeida
            Antonio Torquato Pires de Figueiredo" (17). 
           "Pratica de operações
            (Página 52)
            Aos dezasete dias do mez de Dezembro de mil oito centos e vinte sete comparecerão no Theatro Anatomico os Estudantes João Baptista dos Anjos, Elias José Pedrosa, Vicente Ferreira de Mag.es e Antonio Guilherme e Muniz para faserem exame practico de operações no Cadaver segundo o ponto que no mesmo dia havião tirado em presença dos Lentes do Collegio Manoel Joaquim Henrique de Paiva, Jozé Soares de Castro, Manoel Jozé Estrella e Francisco de Paula de Araujo e Almeida, os quaes os derão por Approvados Nemine Discrepante, e para constar fiz este termo em que assignarão os d.os Lentes. Bahia, 17 de Dezembro de 1827.
            Jozé Soares de Castro                   M.el Jozé Estrella
            Francisco de Paula de Araujo e Almeida" (18). 
            "Anatomia pratica
            (Página 52 - V)
            No mesmo dia forão approvados no exame pratico de Anatomia, na presença dos M.mo Lentes acima os Estudantes João Baptista dos Anjos, o Senhor Marcellino Antonio de Mello e Albuquerque, Antonio Manoel de Souza Esequiel Francisco das Neves, João Felipe Rastelli, e para constar fiz este termo em que assignarão os Lentes. Bahia 17 de Dezembro de 1827
            Jozé Soares de Castro                   Manoel Jozé Estrella
            Francisco de Paula Araujo e Almeida" (19). 
             "Quarto anno de Repetição
            (Página 53 - V)
            Aos quatro dias do mez de Dezembro de mil oito centos e vinte e oito, compareceo o Estudante do Sexto anno João Baptista dos Anjos para faser exame theorico das materias do quarto anno; e depois de defender huma dissertação e de ser perguntado pelos Lentes Examinadores o D.r Francisco de Paula de Araujo e Almeida, Jozé Soares de Castro e Manoel Jozé Estrella de baixo da Prezidencia do D.r Jozé Lino Coutinho foi por elles approvado Nemine Discrepante. Em fé do que Eu Secretario interino fiz este termo em que assignarão os d.es Lentes.
            Bahia 4 de Dezembro de 1828
            Jozé Lino Coutinho
            Manoel Jozé Estrella
            Jozé Soares de Castro
            Francisco de Paula Araujo e Almeida" (20). 
           "Quinto dias Septo annu
            (Página 57 - V)
            Aos vinte dias do mes de Dezembro de mil oito centos e vinte oito na Salla dos Exames da congregação os Lentes do Collegio Medico Cirurgico Antonio Ferreira França, José Lino Coutinho, Francisco de Paula Araujo e Almeida, Manoel José Estrella, e José Soares de Castro para votarem sobre omerecimento do Estudante do sexto anno João Baptista dos Anjos natural da Cidade da Bahia filho de Pedro de Jezus Stokler a vista dos Diarios de cincodoentes de medicina e cirurgia, presentes os Lentes, e que deverão por espaço de onze dias, segundo a ultima resolução do Collegio de 27 de Novembro do m.mo anno, e corrido o Escrutinio foi por elles Approvado Nemine Discrepante nos exames que fez theorico constante do termo antecedente e pratico no mesmo dia de hoje fica condecorado com o gráo de Formado em cirurgia egosando de todos os atributos que lhe são concedidos pelo Plano da Escolla e Lei Novissima. Em fé do que Eu Francisco Marcellino Gesteira secretario interino fiz este termo assignado por todos.
            Bahia 20 de Dezembro de 1828
            Antonio Ferreira França
            Jozé Lino Coutinho
            Manoel Jozé Estrella
            Jozé Soares de Castro
            Francisco de Paula Araujo e Almeida" (21).           
            Destarte, no dia 20 de dezembro de 1828, o denodado e idealista João Baptista dos Anjos, ao concluir o seu tirocínio acadêmico, deu o primeiro passo que o levaria a trilhar uma fulgurante trajetória no âmbito da medicina, levando a sociedade de então a contribuir com pedras preciosas para o pedestal da fama, pelo reconhecimento do valor e talento do notável médico, escrevendo o lente doutor Domingos Rodrigues Seixas um justíssimo panegírico, celebrando o seu mérito com páginas encomiásticas e laudatórias.
            Tão logo foi premiado com o grau de formado em cirurgia, mercê do seu avultado talento, já no ano seguinte, em dezembro de 1829, sentava-se o humilde porteiro do Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia ao lado dos seus eminentes professores, já na qualidade de "Lente Examinador", quando avaliou antigos colegas do Colégio, avultando-se os estudantes Elias José Pedroza e Vicente Ferreira de Magalhães, aquele, futuro lente de Anatomia Geral e Patológica e, este, lente, por concurso, de Física Médica e vice-diretor interino da Faculdade de Medicina da Bahia e diretor interino, com o falecimento do conselheiro João Baptista dos Anjos, de 1871 a 1874.
            Vejamos:
            "Quarto anno de Repetição
            (Página 58)
            Aos quatro dias do mez de Dezembro de mil oitocentos, e vinte, e nove na Salla dos Exames compareceo o Estudante do sexto anno Elias José Pedroza, para fazer exame theorico das materias do quarto anno, e depois de defender sua "Dissertação", e de ser perguntado pelos Lentes Examinadores p D.r Antonio Ferreira França, Fortunato Candido da Costa Dormund, João Baptista dos Anjos e João Antunes d'Azevedo Chaves, debaixo da Prezidencia do D.r Francisco Marcellino Gesteira, foi por elles Approvado =Nemine Discrepante=. E eu João Antunes d'Azevedo Chaves, nomeado para servir de secretario, fiz este termo, que assignei com os Lentes acima referidos. Bahia e Salla dos Exames do Collegio Medico Chirurgico 4 de Dezembro de 1829
            Francisco Marcellino Gesteira
            Antonio Ferreira França" (22).
 
            "Quarto anno de Repetição
            (Página 58 - V)
            Aos cinco dias do mez de Dezembro de mil oito centos, e vinte, e nove, compareceo o Estudante repetente Vicente Ferreira de Magalhães, para fazer o exame Theorico das materias do quarto anno, que faz parte do de Dissertação, sobre o ponto, que tirar de vespera, e sendo perguntado pelos Lentes Examinadores Manoel José Estrella, Jonathas Abbott, João Baptista dos Anjos e João Antunes D'Azevedo Chaves, de baixo da Prezidencia do d.r Francisco Marcellino Gesteira, depois de defender sua Dissertação sobre Obstetricia, foi por elles Approvado Nemine Discrepante. E eu João Antunes D'Azevedo Chaves, nomeado para servir de secretario, fiz este termo, que assignei com os referidos Lentes. Bahia, e Salla dos Exames do Collegio Medico-Chirurgico 5 de Dezembro de 1829
            Francisco Marcellino Gesteira
            Manoel Jozé Estrella
            Jonathas Abbott
            João Baptista dos Anjos
            João Antunes D'Azevedo Chaves" (23). 
            Em 1829, envolveu-se o conselheiro João Baptista em acirrada polêmica devido a nomeação, "ob e subrepticiamente", para a cadeira de Fisiologia do Colégio Médico-Cirúrgico, do lente Constantino Tavares de Macedo, indicação que violou os "incontractaveis Direitos" do conselheiro, o que o levou a pedir embargo à posse do sobredito lente.
            Também solicitou embargo o lente João Antunes de Azevedo Chaves.
            Para alcançarem o desiderato, firmaram a procuração cujo teor é o seguinte:
            "João Baptista dos Anjos, e João Antunes de Azevedo Chaves, Formados em Cirurgia pela Escola Médico Cirurgica desta Cidade, Lentes Substitutos da mesma Escola
            Para esta causa e suas dependencias constituimos por nossos bastantes Procuradores aos Senhores Advogados Pedro Baptista do Nascimento, José Joaquim Pires, e Manoel Marques de Souza Porto, e Requerentes os Senhores Joaquim José de Santa Anna Gesteira, Luiz Ramos d'Oliveira, e Pedro Alexandrino de Andrade, para que todos juntos, e cada hum de per si, possão requerer todo o nosso direito e justiça, appelar, embargar, aggravar, jurar em nossas almas dicisoria, e suppletoriamente oppor embargos de qual quer natureza que sejão, ver com excepçoens, offerecer suspeiçoens, appresentar e contraditar testemunhas, e obrar tudo o mais, que aqui não especificamos, pois havemos por declarados todos os cumpridos e especiais poderes, para por nós obrarem, como se presentes fossemos. Bahia 15 de Desembro de 1829, João Baptista dos Anjos, João Antunes de Azevedo Chaves". (24).
            Firmaram o seguinte expediente respeitante ao caso, endereçado aos lentes do Colégio Médico-Cirúrgico:
            "Ill.mo Snres Lentes do Collegio Medico Cirurgico -
            Dizem os abaixo assignados, Lentes Substitutos da Eschola, que havendo Constantino Tavares de Macedo alcançado ob e subrepticiamente a Cadeira de Phisiologia da mesma Eschola, e vindo em consequencia á ser violados com tal nomeação os incontractaveis Direitos dos Supplicantes, tem estes que oppor Embargos á posse, que pretende o Supplicado, para o effeito de serem remettidos ao Tribunal, d'onde emanou o Decreto, em virtude da ord. L.º2.º tit. 43, e 44; e como esta mesma Ord.  authorisa á este Collegio para deferir aos Supplicantes, requerem, e Pedem a V. S.as se dignem haver por bem, que appresentados os mesmos Embargos para serem remettidos, se officie ao Ex.mo V. Presidente da Provincia, para por seo intermedio tornar effectiva a mesma remessa, lavrando-se de tudo os competentes assentamentos no L.º do registro deste Collegio para a todo tempo constar. E.R.M. João Antunes de Azevedo Chaves, João Baptista dos Anjos. Como requerem. Bahia 16 de Dezembro de 1829. Lino Coutinho, Estrella. França. Abbott. Dormund. Gesteira —" (25).
            E prosseguem:
            "Com o devido respeito, João Baptista dos Anjos Substituto das Cadeiras do Collegio Medico Cirurgico, e João Antunes de Azevedo Chaves Substituto da Cadeira de Operaçoens e Partos do mesmo Collegio, tem legitimos e relevantes Embargos d'ob e subrepção a Carta que obteve Constantino Tavares de Macedo para servir de Lente da Cadeira de Fisiologia do referido Collegio, havendo-se por apposentado o Lente Manoel José Estrella, que a serve; e propondo-os, disem contra o Embargado pela maneira melhor de Direito. P. ha de constar da Carta embargada, que o Embargado fora nomeado Lente da indicada Cadeira de Fisiologia do Collegio Medico Cirurgico desta Provincia, julgando-se vaga em consequencia de ser aposentado o Lente actual Manoel José Estrella; e que para obter huma tal nomeação allegara  concorrerem em sua pessoa todos os requisitos necessarios, deixando ao mesmo tempo de referir a Lei em favor dos Embargados, e mesmo dos oppositores, e mais filhos do Collegio. E como similhante impetra, e o seu deferimento laborão em ob e subrepção esperão os Embargantes, que guardada a Lei, assim se lhes defina; por quanto. P. e he de Direito expresso, que toda e qual quer Carta, Provisão e Nomeação, Graça ou Mercê, que se haja impetrado callada a verdade ou contra Direito, he nulla, e necessariamente inesequivel - Ord. L.º 2 tit 43. Alv. De 30 de Outubro de 1751. P. que ainda considerando-se vagas a sobremencionada Cadeira de Fisiologia, não fora jamais para que a occupasse o Embargado, quer em rasão de lhe não concorrerem os requisitos necessarios, quer em rasão do Direito dos Embargantes - Em quanto a 1.ª por que. P. que as Cadeiras do Collegio Medico Cirurgico devem ser providas em filhos da Casa, que tenhão dado provas decisivas do seu merecimento a aptidão, assim por escripto, como de palavra, de maneira que tenhão verdadeiramente grangeado credito e reputação da sua capacidade e merecimento literario no juizo da Faculdade e Corpo academico L. de 11 de Dezembro de 1823 § 20 Art 179.
            P. que ao Embargado nenhuma das ditas qualidades assiste, não só por que não he filho de Collegio, como porque não tem dado aquellas provas de sua capacidade literaria, não constando até com a necessaria authenticidade, que seja Graduado D.or em alguma Universidade estrangeira; o que he tanto mais de accreditar a vista do Aviso do Ex.mo Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios do Imperio dirigido ao Presidente desta Provincia, em data de trez de Novembro em quanto que ali o Embargado não he nomeado com Gráo algum. Em quanto a 2.ª, por que. P. que pelos Estatutos do Collegio Medico Cirurgico desta Provincia, confirmadas pela Carta Regia de 29 de Desembro de 1815, são oppositores natos ás Cadeiras do mesmo Collegio os Cirurgioens ali formados, e que estes prefirão aos que o não forem Art. 16. Preferirão em todas os Partidos aos que não tiverem esta Condecoração. Serão desde logo Membros do Collegio Cirurgico, e Oppositores as Cadeiras deste Curso e das estabelecidas nesta Cid.e, e das que se hão de estabelecer em Maranhão e Portugal, e assim o confirmou a Lei de 9 de Setembro de 1820. P. que os Embargantes não só são Oppositores natos, como Substitutos 1.º em geral das Cadeiras do Collegio Medico Cirurgico, e o 2.º da de Opperaçoens e partos. Por conseguinte. P. quese o Embargado em sua impetra expossesse a verdade a seu respeito, e a respeito dos Embargantes com referencia a Lei, provavelmente não obteria a Nomeação embargada, por não ser crivel que lhe fosse conferida manifestamente contra a Lei, e os direitos dos Embargantes immediatamente, como mediatamente de todos os Filhos do Collegio. P. que a nomeação do Embargado ob e subrepticiamente impetrada, alem do mal, que em si enserra por isso mesmo que imposta inobservancia e infração notoria da Lei, e manifesta a injustiça e espolio aos Embargantes certamente contra todas as Intençoens de hum Governo Constitucional he de mais a mais perniciosa e nociva a Prosperidade do Estabelecimento, ajudando os Alumnos no progresso da sua carreira literaria por isso mesmo que lhes falta o melhor estimulo na espectativa de encontrarem no provimento das Cadeiras que vagarem no seu Collegio a recompensa do merecimento, serviços e trabalhos literarios. P. que os Embargantes são com effeito filhos do Collegio, Substitutos, como tem indicado as Cadeiras em geral o 1.º, e o 2.º de Opperaçoens e Partos, de capacidade e merecimento reconhecido; e ao mesmo tempo incapases de allegarem de falso. Nestes termos. P. e por se identificarem aos de Direito, embargada a Carta, que o Embargado impetrara, hão de indusir a sua nullidade, declarando-se ob e subrepticia, com todas as pronunciaçoens justas e consentaneas a litteral execução da Lei: Com ... Saudaveis. Pedro Baptista Nascimento". (26).
            A propósito da demanda, os lentes do Colégio Médico-Cirúrgico enviam o Presidente da província o expediente seguinte:
            "Ill.mo e Ex.mo Senhor
            Tendo sido appresentado a este Collegio Medico Cirurgico o Decreto pelo qual fora Sua Magestade Imperial Servido nomear a Constantino Tavares de Macedo para a Cadeira de Fisiologia pela Jubilação do Lente Proprietario Manoel José Estrella e conjunctivamente apparecendo embargos ao Cumprimento do ditto Decreto, e posse do referido agraciado pelos dous Substitutos do Collegio, que se julgão gravemente lezados em seu Direito, esta Escola dirige a V. Ex.ca como primeira Autoridade da Provincia o requerimento dos dous Substitutos, seus embargos e o Decreto da Graça concedida afim de tudo ser levado a Presença do Governo de Sua Magestade Imperial donde tal Decreto emanou, não podendo ella dar posse, e nem fazer obra alguma, como bem determinão as Ordenaçoes do Reino de Portugal, que ainda hoje nos regem. Liv. 2.º Tit. 43, e 44, e o Alvará de 30 de 8br.º de 1751. Deos G.e a VEx.ca Bahia em Collegio 17 de Debr.º 1829
            Ill.mo e Ex.mo Senhor Visconde de Camamú
            Presidente desta Provincia